Quando Soul foi lançado, muita gente teve a mesma reação imediata: “Esse filme parece psicodélico.”

Cores vibrantes, formas abstratas, ambientes etéreos e personagens que não obedecem à lógica física tradicional criam uma sensação que, para o público leigo, soa quase como uma experiência alucinógena.
E aqui está o ponto central: essa leitura não está errada.
Mesmo sem nenhuma relação direta com substâncias psicodélicas, Soul utiliza exatamente o mesmo vocabulário visual que a cultura popular aprendeu a associar a estados alterados de consciência. Isso nos leva a um dos princípios mais importantes do design e da comunicação visual:
O design comunica antes da intenção.
Durante décadas, a estética psicodélica foi consolidada visualmente em capas de discos, cartazes, artes experimentais, animações e experiências gráficas ligadas à contracultura. Cores saturadas, contrastes extremos, ausência de gravidade, formas orgânicas e abstração passaram a representar, no imaginário coletivo, ideias como:
Quando esses códigos aparecem em qualquer contexto, o cérebro faz a associação automaticamente. Não importa a explicação racional posterior. A leitura acontece antes do discurso.
Em Soul, a Pixar precisava resolver um problema complexo: como representar alma, consciência, propósito e existência sem recorrer a símbolos religiosos ou dogmas específicos.
A solução foi visual, não conceitual.
O “Pré-Vida” não é um lugar físico. Ele é um estado simbólico. Para isso, o estúdio buscou referências em:
O resultado é um universo visual que foge da representação literal e entra no território do sensorial. E tudo que é sensorial é interpretado antes de ser entendido.

Quem não tem repertório em design, arte ou psicologia não analisa códigos visuais de forma técnica. Analisa por sensação. E a sensação que Soul provoca é a mesma que a cultura ensinou a chamar de “viagem”.
Isso não significa que o filme fale sobre drogas. Significa que ele fala sobre estados internos, usando uma linguagem visual que o público já conhece, mesmo sem saber de onde.
O cérebro reconhece padrões. E o design trabalha exatamente com isso.
Um erro comum é achar que o design abstrato é neutro. Ele não é.
Ele é carregado de referências históricas, culturais e emocionais.
Quando um projeto escolhe a abstração, ele abre mão do controle total da narrativa e aceita algo fundamental: cada pessoa vai completar o significado com o próprio repertório.
Em Soul, isso fica evidente. Para alguns, é espiritual. Para outros, é filosófico. Para outros, é psicodélico. Todas essas leituras coexistem porque o design permite.
Esse caso deixa uma lição clara para qualquer projeto criativo:
O impacto visual vem primeiro. A explicação vem depois.
Se o visual aponta para um lugar, não adianta o texto tentar puxar para outro.
Design não é apenas estética. É linguagem cultural aplicada.

Soul não é um filme sobre alucinação, mas usa uma estética que o imaginário coletivo associa a ela. Isso não é um problema de interpretação, é o funcionamento natural da comunicação visual.
Quando entendemos que o design comunica antes da intenção, passamos a criar com mais consciência, estratégia e responsabilidade.
E esse talvez seja o maior mérito do filme: mostrar que, antes de qualquer discurso, é o visual que abre a conversa.