As bets estão encarecendo a disputa pela sua atenção?

Foto: TOSS Studio | Magnific

Sim, existe um fenômeno real por trás dessa percepção: o setor de apostas passou a movimentar muito dinheiro e a investir agressivamente para conquistar atenção. Mas dizer que as bets, sozinhas, encareceram toda a publicidade ou estagnaram a economia brasileira seria ir além do que os dados permitem afirmar.

O ponto mais interessante está em outro lugar: uma empresa que vende roupas, alimentos, serviços ou qualquer produto físico hoje disputa espaço publicitário com negócios que possuem uma lógica econômica completamente diferente.

A dimensão das apostas no Brasil mudou rapidamente

Um estudo do Banco Central estimou que empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês entre janeiro e agosto de 2024, enviados por aproximadamente 24 milhões de brasileiros. O BC estimou ainda que cerca de 15% dos valores apostados permaneciam com as empresas, enquanto o restante retornava na forma de prêmios.

Naturalmente, nem todo dinheiro apostado deixa de circular pela economia. Também seria errado afirmar que as bets não possuem custos ou não pagam impostos. O mercado regulado possui despesas operacionais, tributação, tecnologia, funcionários, meios de pagamento, marketing e exigências regulatórias.

Mas existe uma diferença importante quando olhamos para aquisição de clientes.

Uma empresa que vende uma camiseta precisa produzir, armazenar, embalar e entregar aquela camiseta. Um restaurante precisa comprar ingredientes, manter funcionários e preparar refeições. Uma indústria precisa produzir aquilo que vende.

Uma plataforma digital de apostas possui outra estrutura econômica e pode destinar uma parcela relevante de sua receita à aquisição e retenção de usuários.

E é justamente aí que a história começa a ficar interessante.

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As bets entraram pesado na publicidade digital

O Digital AdSpend 2025, estudo do IAB Brasil com dados da Kantar IBOPE Media, mostra que os investimentos brasileiros em publicidade digital chegaram a R$ 37,9 bilhões em 2024, crescimento de 8% sobre 2023.

Dentro desse mercado, nenhum dos 15 principais setores analisados cresceu tanto quanto jogos e apostas.

O investimento digital da categoria aumentou 192% em apenas um ano. Para comparação, educação cresceu 43%, automotivo 33% e serviços 32%.

Isso não significa que as bets fizeram o anúncio da sua empresa ficar 192% mais caro.

Publicidade digital funciona por sistemas complexos de segmentação e, muitas vezes, leilões. Público, localização, objetivo, concorrência, qualidade do anúncio e inúmeros outros fatores interferem no preço.

Mas mostra algo importante: um setor com enorme capacidade de investimento entrou agressivamente na disputa pela mesma coisa que praticamente todas as empresas querem comprar: atenção.

E não apenas no Google ou Instagram.

Bets estão em influenciadores, clubes, transmissões esportivas, camisetas, estádios, mídia exterior, afiliados e diferentes formatos digitais.

A presença tornou-se tão relevante que o próprio CONAR ampliou, em agosto de 2026, as restrições para publicidade de apostas, incluindo novas regras envolvendo influenciadores e afiliados. O governo federal também reforçou neste ano as exigências para comunicação e publicidade do setor.

Talvez o problema seja depender demais de atenção comprada

Aqui aparece uma discussão maior do que as próprias bets.

Durante anos, empresas se acostumaram com uma lógica relativamente simples: colocar dinheiro em uma plataforma para alcançar pessoas.

Só que atenção é um recurso limitado.

Quando novos anunciantes com grande capacidade financeira entram nessa disputa, depender exclusivamente de mídia paga deixa a empresa vulnerável a algo sobre o qual ela possui pouco controle: o preço de continuar aparecendo.

Por isso, construir presença digital própria ganha outra importância.

Site, conteúdo encontrável no Google e nas ferramentas de IA, base de clientes, newsletter, reputação, avaliações, comunidade, busca pela marca e relacionamento direto não substituem publicidade.

Eles diminuem a dependência dela.

Essa talvez seja a parte mais importante dessa discussão. O problema não é existir alguém disposto a pagar mais pela atenção. É sua empresa precisar comprar atenção toda vez que quiser ser lembrada.

Fontes:

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    itoss Autor:

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