

“A vida de um designer é uma vida de luta: luta contra a feiura.” A frase atribuída a Massimo Vignelli, um dos nomes mais importantes do design gráfico do século XX, continua provocando reflexões sobre a profissão.
Quem trabalha com design conhece essa sensação. Um alinhamento fora do lugar, uma tipografia mal escolhida, uma composição desequilibrada ou aquela alteração de última hora que compromete todo o projeto.
Mas será que a principal responsabilidade de um designer é combater a feiura?
Talvez essa interpretação seja pequena demais para uma profissão que influencia diretamente a maneira como as pessoas compreendem informações, utilizam produtos e percebem marcas.
Massimo Vignelli (1931–2014) foi um designer italiano conhecido por trabalhos em identidade visual, sinalização, publicações e sistemas de comunicação. Entre seus projetos mais conhecidos estão trabalhos para o metrô de Nova York e a identidade da American Airlines.
Sua abordagem valorizava clareza, organização, consistência e simplicidade. Para Vignelli, o design não deveria depender apenas de preferências estéticas, mas de decisões fundamentadas.
Essa visão ajuda a compreender sua crítica à feiura. Não se trata simplesmente de produzir coisas bonitas, mas de evitar soluções visuais mal resolvidas, confusas ou inconsistentes.
Imagine uma empresa com uma identidade visual sofisticada, um site moderno e publicações visualmente impecáveis nas redes sociais.
Agora imagine que cada canal apresenta uma mensagem diferente, os serviços são difíceis de compreender e o visitante não consegue encontrar as informações que procura.
O problema dessa empresa não é exatamente estético. É de comunicação.
O design pode estar visualmente bem executado e, ainda assim, não cumprir sua função.
Essa distinção é importante porque o trabalho do designer não termina quando algo fica bonito. Ele precisa considerar o público, o contexto, a mensagem e a experiência de quem terá contato com aquilo.
Um site, por exemplo, não deve ser avaliado apenas pela aparência de sua interface. A facilidade de navegação, a hierarquia das informações e a clareza dos textos também fazem parte do projeto.
Ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir imagens, interfaces, apresentações e peças publicitárias em poucos minutos.
Essa velocidade ampliou as possibilidades de criação, mas também facilitou a publicação de materiais sem revisão adequada.
Textos incorretos, elementos distorcidos, composições incoerentes e identidades visuais inconsistentes são alguns dos problemas que podem passar despercebidos quando a produção se torna mais importante que a avaliação.
O desafio não está na utilização da IA, mas na ausência de critérios para avaliar seus resultados.
Nesse cenário, o valor do designer não está apenas em saber executar uma peça visual. Está também em compreender o problema, orientar a criação, reconhecer falhas e decidir o que realmente funciona.
A ferramenta acelera a execução. A responsabilidade pelas decisões continua sendo humana.
Uma das situações mais comuns na profissão acontece quando decisões de projeto são reduzidas a preferências pessoais.
“Não gostei dessa cor.”
“Podemos aumentar o logotipo?”
“Essa fonte está muito simples.”
Preferências são legítimas, mas não deveriam ser o único critério para avaliar um trabalho de design.
Uma escolha visual precisa considerar legibilidade, acessibilidade, coerência com a marca, contexto de utilização e objetivos de comunicação.
Isso não significa que o designer esteja sempre certo ou que o cliente não deva participar das decisões. Significa que existe uma diferença entre discutir preferências e avaliar a eficácia de uma solução.
A reflexão de Vignelli permanece relevante, mas pode ser ampliada para a realidade atual.
O designer continua combatendo a desorganização visual, os excessos e as escolhas estéticas mal resolvidas. Entretanto, também precisa enfrentar mensagens confusas, experiências frustrantes e soluções que não atendem às necessidades das pessoas.
A beleza continua importante. Ela contribui para a percepção de qualidade, identidade e experiência.
Mas não pode ser o único objetivo.
Talvez a maior contribuição de um bom designer não seja tornar o mundo visualmente mais bonito, mas torná-lo mais fácil de compreender.
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