

Em 1984, Susan Kare demonstrava como pessoas que nunca haviam usado um computador conseguiam aprender a operar um Macintosh em cerca de 20 minutos. Quatro décadas depois, quando a inteligência artificial permite gerar interfaces, imagens e ideias em segundos, existe uma lição importante naquele trabalho: design não é sobre produzir mais. É sobre fazer as pessoas entenderem melhor.
Kare foi responsável por muitos dos ícones e elementos gráficos do Macintosh original. Seu desafio era transformar conceitos abstratos da computação em uma linguagem que pessoas comuns conseguissem compreender.
E ela tinha poucos pixels para fazer isso.
Na demonstração de 1984, Kare explica elementos que hoje fazem parte do nosso vocabulário digital: janelas, pastas, documentos, menus e controles visuais.
Quando o computador precisava de um disquete, mostrava a imagem de um disquete. Quando estava processando alguma coisa, aparecia um pequeno relógio. Arquivos podiam ser colocados dentro de pastas porque a lógica imitava algo que as pessoas já conheciam no mundo físico.
Segundo Kare, os ícones ajudavam porque seu significado podia ser explicado rapidamente e depois lembrado com facilidade.
Anos depois, ela resumiria um bom ícone como aquele que pode ser reconhecido imediatamente ou cujo significado precisa ser explicado apenas uma vez para ser lembrado. Kare também testava suas propostas mostrando alternativas para outras pessoas e observando quais eram compreendidas com maior facilidade.
Isso parece óbvio hoje justamente porque funcionou.
Existe uma tentação comum no trabalho criativo: confundir originalidade com qualidade.
Um menu diferente, uma navegação pouco convencional, um ícone abstrato ou uma interação inesperada podem parecer interessantes para quem está criando. Para quem está usando, podem representar apenas mais uma coisa que precisa ser aprendida.
Susan Kare partia muitas vezes da direção contrária.
Documentos pareciam documentos. Pastas remetiam a pastas. A lixeira comunicava descarte. O MoMA descreve seus pictogramas como traduções de funções computacionais pensadas para formar uma linguagem compreensível para usuários de diferentes países.
O trabalho criativo estava justamente na simplificação.
Não era necessário mostrar ao usuário quanto trabalho existia por trás daquela solução. Era necessário fazer a solução parecer natural.
Hoje temos praticamente o problema inverso.
Kare trabalhava com uma grade de aproximadamente 32 × 32 pixels para muitos daqueles ícones. Seus primeiros estudos chegaram a ser feitos com lápis e papel quadriculado, preenchendo cada quadrado como se fosse um pixel.
Nós temos Figma, bibliotecas gigantescas de componentes, bancos de imagens, sistemas de design e inteligência artificial capaz de gerar dezenas de alternativas em poucos segundos.
A limitação deixou de ser nossa capacidade de produzir.
E isso muda o valor do profissional criativo.
Quando gerar dez layouts custava horas, executar era parte importante do trabalho. Quando podemos gerar dezenas de alternativas rapidamente, aumenta a importância de saber qual delas deveria existir.
É direção, contexto, repertório e senso crítico.
IA pode produzir possibilidades. Ainda precisamos decidir quais resolvem o problema.
O trabalho de Susan Kare continua relevante porque mostra algo fácil de esquecer em uma época fascinada por geração.
Um designer não precisa provar sua criatividade adicionando coisas.
Às vezes o melhor trabalho está em retirar uma interação desnecessária, usar um padrão que as pessoas já conhecem, escolher um símbolo óbvio ou abandonar uma ideia visualmente interessante porque ela dificulta a compreensão.
Isso vale para interfaces, sites, marcas, apresentações e praticamente qualquer projeto de comunicação.
As ferramentas atuais nos deram uma capacidade de produção que Susan Kare provavelmente nem poderia imaginar diante daquele Macintosh de 1984.
Mas trouxeram também um novo problema: agora podemos criar quase qualquer coisa.
E quando qualquer coisa pode ser criada, saber o que não criar se torna uma das habilidades mais importantes de um profissional criativo.
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